F. acorda as oito da manhã com muita dificuldade para se levantar da cama. Rola pra lá e pra cá. Estica o braço e pega o celular na cabeceira da cama. Confere as horas e percebe alguns emails não lidos em seu smartphone. Há também algumas mensagens nas suas redes sociais para serem conferidas. Ele ainda está na cama, mas já está conectado. Aquelas mensagens novas o desperta. Momentaneamente esquece, um tanto entorpecido, que acabara de despertar. Devagar levanta da cama caminhando para o banheiro distraido lendo suas mensagens. Sente-se um pouco motivado com as mensagens de “Bom dia!” espalhada pelos murais das redes sociais. F. tem 17 anos e está atrasado para escola. Enquanto escova os dentes recebe uma mensagem SMS. Um amigo pergunta “Kd vc?”. Um amigo real, daqueles com os quais nos encontramos, criamos afeto e conversamos “tête à tête”, é este quem envia a mensagem da sala de aula onde F. deveria estar agora. Pouco interessado nas aulas, quase todos os dias chega atrasado. Pega sua bicicleta na garagem e sai para escola.
No caminho trafega com grande risco margeando os carros. Chega e entra na escola com dificuldade e, pelo atraso, sofre uma advertência com a qual já está acostumado. Posta no mural do seu perfil no Facebook: “Mais uma vez atrasado e ainda tenho que olhar pra cara desse coordenador. Aulinha chata agora.” Apesar de frequentar as aulas com irregularidade e não se interessar por elas, F. gosta de ler e tem conhecimento para ter o entendimento crítico suficiente dos acontecimentos do mundo. Acompanha alguns jornais pela internet e participa de discussões em fóruns e outras redes. Aluno do terceiro ano do segundo grau, F. se sente em um momento crítico, decisivo pessoal e profissionalmente. Não faz idéia de sua escolha por uma profissão, mas vai prestar o vestibular para Medicina. Fez teste vocacional, cujo resultado foi Direito, no entanto, não suporta todos aqueles códigos. O seu “lance” agora é a internet, como o de muitos de seus amigos, onde passam a maior parte do tempo.
Poderiamos continuar a descrição da vida de F. por muitos parágrafos para mostrar outras situações onde aparentemente há nós em que estão implicados problemas pessoais enredados ao engessamento e às transformações culturais. Embora não queira me alongar situando esses problemas na vida de uma pessoa, fictícia neste caso, é preciso apontar esses problemas na vida diária para não nos perdermos em idéias inaplicáveis, pois somos os jovens inseridos neste caos, às vezes desnorteados, mas atentos para a prática e transformação do legado com o qual temos que descobrir e desdobrar.
Zygmunt Bauman nos apresenta, de forma genérica, um pouco desse legado, de uma cultura construída pelas gerações anteriores à déc.de 80, nas décadas de 60 e 70, com a conquista da Democracia, após duas grandes guerras e com a derrocada dos regimes Totalitários. Agora o mundo Global Pós-moderno nos afeta e nos trasforma. Uma democracia ampliada. É o que nos foi proposto.
Na próxima postagem no Blog continuo a discutir o tema.
Desconectando...
Zra’el.
Entrevista exclusiva: Zygmunt Bauman from cpfl cultura on Vimeo.
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