Saturday, October 01, 2011

O Lagarto



MARKX 85 by sonorus.galopantes





O lagarto
            Todas as manhãs no sítio do Seu José, este mesmo senhor fumava seu cachimbo sentado em uma cadeira de balanço muito antiga. Trocava olhares com o lagarto nomeado por ele mesmo de Fritz. Às seis da manhã estava lá sempre pontual Seu José. Já não tinha mais forças para cortar a lenha para sua Sra. cozinhar o almoço. Passava horas no vai e vem da cadeira com os olhos vidrados em Fritz que se banhava nos raios quentes do sol. O balançar da cadeira dominara o tempo, cujo transcorrer Seu José sequer mais notava. Ambos, o lagarto e ele, viviam em um mundo onde as imagens deglutiam umas as outras como litros de tinta de diversas cores despejados em uma cachoeira. Fritz mantinha-se imóvel durante alguns minutos, ou até por horas, com o calor sendo absorvido por seu corpo, enquanto isso, era transmutado no êxtase de Seu José.  A cada leve movimentação dos dedos de Fritz o corpo de Seu José tremia em alguma extremidade, as baforadas em seu cachimbo se tornavam descontinuas e o balanço sofria um solavanco. Quando o animal mantinha uma de suas patas suspensa, uma das mãos do outro animal se suspendia. Certa noite, lá pelas sete horas, horário daquela região adentrar calmamente a escuridão, o Sr. e sua Sra. foram para o aconchego de sua cama de palha. No caminho sua Sra. teve alguns incovenientes para chegar ao seu leito. Seu José apresentava um comportamento um tanto quanto estranho. Ao passar por um lampião, a Sra. percebia que ele se aproximava do objeto iluminado e, com o rosto colado em uma parede, virava as costas para a luz quente. Espantada chegava até ele e o puxava pela mão. Mas quando o tocava em sua palma sentia uma textura um pouco cascuda, grossa e seca. Então o pegava pelos pulsos e ia junto dele até o quarto. Lá, junto ao leito, novamente Seu José se comportava de maneira incomum. Despia-se e lentamente se prostrava de bruços, quase de quatro, apoiado com as mão e os pés sobre a pallha. A Sra. se deitava e não tirava os olhos dele. Vigiava o por algumas horas, seu movimento de suspender as mãos, depois outra, depois um pé e depois outro. Repetia esse ritual por toda a noite. Assim já passara uma semana em que Sr. José não dormia. Ao clarear o dia, nos primeiros raios de sol, saía de seu quarto, nu e com o cachimbo no canto da boca, e sentava-se em sua cadeira, onde permanecia durante todo o dia frente a frente com Fritz. Preocupada, sua Sra. procurou o médico da região, mas nada pode fazer o Doutor, apenas disse “é demência, neste estágio nada há o que fazer”. Naquele mesmo dia, ao chegar da consulta lá pelas tantas, flagrou Seu José junto à parede da cozinha próximo a um lampião. Ele fazia movimentos com a língua em direção a alguns insetos que sobrevoavam ou se arrastavam pela luz. Não obstante àquela transformação de seu esposo, tentava manter seus afazeres diários e, quando podia, o vigiava à distância. Distraída, ao cair da noite de um certo dia, ele sumira. Desesperada procurou por todos os cantos, na cadeira de balanço, no quarto, próximo aos lampiões, em volta da casa junto às paredes e nada. Gritava por seu nome e nenhuma resposta. Viu, então, uma fumaça sair do sotão da casa. Reconheceu o cheiro de fumo. Subiu as escadas e quando olhou, lá estava Seu José e, para seu espanto, ao lado dele estava Fritz. Ambos, em sintonia, esticaram o pescoço em alerta com os olhos esbugalhados direcionados para ela. Assustada, a Sra., soltou um gritinho, ao que os animais saíram em disparada pela escuridão do sotão adentro. Pálida, desceu ligeiramente as escadas. Caminhava para lá e para cá entre soluços e lágrimas. Ouvia os barulhos acima de sua cabeça. Incontinenti correu para o quarto, juntou umas roupas e fez uma pequena trouxa. Correu porta afora a procura de ajuda. No dia seguinte voltou ao sítio acompanhada do caçador, que portava uma escopeta, e do médico. O caçador entrou na casa, com a arma em punho, engatilhada, e vasculhou todos os cômodos, inclusive o sotão. Não encontrou nenhum vestígio de Seu José. O médico perguntou, então, onde ele costumava ficar, onde ficava sua cadeira e o tal lagarto, pelo qual nutria tamanha afeição. Ela os levou até lá. Nada neste mundo foi tão estupefante do que aquele momento para os três. Logo que viram a cadeira vazia, olharam para o outro lado, em direção à parede, e o que viram fez a Sra. perder as forças e cair desfalecida, sob ajuda do médico que a segurou antes dela se espatifar no chão. O Sr. José estava, ao lado de Fritz, grudado na parede da casa com uma das mãos suspensa e, ainda mais, apresentava uma coloração acinzentada. Os lagartos, Fritz e José, esticaram o pescoço em direção ao caçador e mostraram a língua no mesmo instante em que a arma era apontada para suas cabeças. Disparou de olhos fechados. Quando abriu os olhos só pode ver o buraco do disparo na parede. O médico disse ter visto os bixos correrem para dentro da mata, e mais, disse ter visto, por incrível que possa parecer, um rabo já bem crescido naquilo que antes era o Seu José. Eles garantiram à Sra. poder ficar tranquila, pois aqueles dois não voltariam mais ali. E não voltaram. No entanto, a história não termina aqui. Ao fazer a colheita de alguns vegetais em sua horta, em uma manhã morna, a Sra. avistou uma fumaça saindo do chão ali próximo. Aproximou-se com cautela e o que viu era um buraco. Um buraco grande demais para qualquer animal da região, ao menos daqueles animais que fazem buracos. A fumaça saia dele em intervalos. O que imaginou viver naquela toca, ela pode entrever, por um breve instante, o rosto deformado em meio à penumbra, daquilo, que não mais era Seu José. 

Zra'el

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