MARKX 85 by sonorus.galopantes
O lagarto
Todas as manhãs no sítio do
Seu José, este mesmo senhor fumava seu cachimbo sentado em uma cadeira de
balanço muito antiga. Trocava olhares com o lagarto nomeado por ele mesmo de
Fritz. Às seis da manhã estava lá sempre pontual Seu José. Já não tinha mais forças
para cortar a lenha para sua Sra. cozinhar o almoço. Passava horas no vai e vem
da cadeira com os olhos vidrados em Fritz que se banhava nos raios quentes do
sol. O balançar da cadeira dominara o tempo, cujo transcorrer Seu José sequer
mais notava. Ambos, o lagarto e ele, viviam em um mundo onde as imagens
deglutiam umas as outras como litros de tinta de diversas cores despejados em
uma cachoeira. Fritz mantinha-se imóvel durante alguns minutos, ou até por
horas, com o calor sendo absorvido por seu corpo, enquanto isso, era
transmutado no êxtase de Seu José. A
cada leve movimentação dos dedos de Fritz o corpo de Seu José tremia em alguma
extremidade, as baforadas em seu cachimbo se tornavam descontinuas e o balanço
sofria um solavanco. Quando o animal mantinha uma de suas patas suspensa, uma
das mãos do outro animal se suspendia. Certa noite, lá pelas sete horas,
horário daquela região adentrar calmamente a escuridão, o Sr. e sua Sra. foram
para o aconchego de sua cama de palha. No caminho sua Sra. teve alguns
incovenientes para chegar ao seu leito. Seu José apresentava um comportamento
um tanto quanto estranho. Ao passar por um lampião, a Sra. percebia que ele se
aproximava do objeto iluminado e, com o rosto colado em uma parede, virava as
costas para a luz quente. Espantada chegava até ele e o puxava pela mão. Mas
quando o tocava em sua palma sentia uma textura um pouco cascuda, grossa e
seca. Então o pegava pelos pulsos e ia junto dele até o quarto. Lá, junto ao
leito, novamente Seu José se comportava de maneira incomum. Despia-se e
lentamente se prostrava de bruços, quase de quatro, apoiado com as mão e os pés
sobre a pallha. A Sra. se deitava e não tirava os olhos dele. Vigiava o por
algumas horas, seu movimento de suspender as mãos, depois outra, depois um pé e
depois outro. Repetia esse ritual por toda a noite. Assim já passara uma semana
em que Sr. José não dormia. Ao clarear o dia, nos primeiros raios de sol, saía
de seu quarto, nu e com o cachimbo no canto da boca, e sentava-se em sua
cadeira, onde permanecia durante todo o dia frente a frente com Fritz.
Preocupada, sua Sra. procurou o médico da região, mas nada pode fazer o Doutor,
apenas disse “é demência, neste estágio nada há o que fazer”. Naquele mesmo
dia, ao chegar da consulta lá pelas tantas, flagrou Seu José junto à parede da
cozinha próximo a um lampião. Ele fazia movimentos com a língua em direção a
alguns insetos que sobrevoavam ou se arrastavam pela luz. Não obstante àquela
transformação de seu esposo, tentava manter seus afazeres diários e, quando
podia, o vigiava à distância. Distraída, ao cair da noite de um certo dia, ele
sumira. Desesperada procurou por todos os cantos, na cadeira de balanço, no
quarto, próximo aos lampiões, em volta da casa junto às paredes e nada. Gritava
por seu nome e nenhuma resposta. Viu, então, uma fumaça sair do sotão da casa.
Reconheceu o cheiro de fumo. Subiu as escadas e quando olhou, lá estava Seu
José e, para seu espanto, ao lado dele estava Fritz. Ambos, em sintonia,
esticaram o pescoço em alerta com os olhos esbugalhados direcionados para ela.
Assustada, a Sra., soltou um gritinho, ao que os animais saíram em disparada
pela escuridão do sotão adentro. Pálida, desceu ligeiramente as escadas.
Caminhava para lá e para cá entre soluços e lágrimas. Ouvia os barulhos acima
de sua cabeça. Incontinenti correu para o quarto, juntou umas roupas e fez uma
pequena trouxa. Correu porta afora a procura de ajuda. No dia seguinte voltou
ao sítio acompanhada do caçador, que portava uma escopeta, e do médico. O
caçador entrou na casa, com a arma em punho, engatilhada, e vasculhou todos os
cômodos, inclusive o sotão. Não encontrou nenhum vestígio de Seu José. O médico
perguntou, então, onde ele costumava ficar, onde ficava sua cadeira e o tal
lagarto, pelo qual nutria tamanha afeição. Ela os levou até lá. Nada neste
mundo foi tão estupefante do que aquele momento para os três. Logo que viram a
cadeira vazia, olharam para o outro lado, em direção à parede, e o que viram
fez a Sra. perder as forças e cair desfalecida, sob ajuda do médico que a
segurou antes dela se espatifar no chão. O Sr. José estava, ao lado de Fritz,
grudado na parede da casa com uma das mãos suspensa e, ainda mais, apresentava
uma coloração acinzentada. Os lagartos, Fritz e José, esticaram o pescoço em
direção ao caçador e mostraram a língua no mesmo instante em que a arma era
apontada para suas cabeças. Disparou de olhos fechados. Quando abriu os olhos
só pode ver o buraco do disparo na parede. O médico disse ter visto os bixos
correrem para dentro da mata, e mais, disse ter visto, por incrível que possa
parecer, um rabo já bem crescido naquilo que antes era o Seu José. Eles
garantiram à Sra. poder ficar tranquila, pois aqueles dois não voltariam mais
ali. E não voltaram. No entanto, a história não termina aqui. Ao fazer a
colheita de alguns vegetais em sua horta, em uma manhã morna, a Sra. avistou
uma fumaça saindo do chão ali próximo. Aproximou-se com cautela e o que viu era
um buraco. Um buraco grande demais para qualquer animal da região, ao menos
daqueles animais que fazem buracos. A fumaça saia dele em intervalos. O que
imaginou viver naquela toca, ela pode entrever, por um breve instante, o rosto
deformado em meio à penumbra, daquilo, que não mais era Seu José.
Zra'el

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